Na noite em que a Baixa de São José se transforma em território de fé e memória, a Ladainha de São João reúne tradição, promessa e identidade cultural em Parintins. Entre cânticos e devoção, o boi Garantido volta às ruas às 18h30 no Curral Tradicional e, às 22h, percorre a cidade reafirmando um pacto que atravessa gerações — o mesmo que deu origem ao boi mais campeão de Parintins.

Em depoimento, Karen Larissa — ex-coordenadora do Garantido Show, dançarina, pedagoga e integrante da equipe social do Boi-Bumbá Garantido — revisita, com olhar de quem vive e estuda a tradição, a origem de uma das mais fortes expressões da cultura parintinense, onde fé, memória e promessa se entrelaçam e seguem sendo transmitidas de geração em geração.

Líder cultural de uma tradição que atravessa o tempo, ela destaca que o boi não é apenas festa: é continuidade viva de um pacto simbólico que nasceu na infância de Lindolfo Monteverde e permanece, até hoje, como fundamento espiritual e cultural do Boi-Bumbá Garantido.

Segundo seu relato, tudo começa na infância de Lindolfo Monteverde, quando ele sonhava com o boi bumbá Garantido e brincava com um pequeno boi de curuatá, material simples que já carregava um universo de imaginação e devoção popular. Mais tarde, ainda jovem, ao completar 18 anos, ele enfrentou um período de doença que marcou profundamente sua trajetória.

Karen Larissa – Foto: Charlene Duvallier

Nesse momento de fragilidade, ele fez uma promessa: se fosse curado, sairia com seu boizinho de curuatá pelas ruas de Parintins, em homenagem aos três santos do mês de junho. Assim, a devoção se transformou em compromisso público, conectando fé e cultura.

Conforme a tradição se consolidou, essa promessa passou a ser cumprida em três momentos simbólicos e históricos. Primeiro, no dia 12 de junho, em homenagem a Santo Antônio, quando o Garantido sai às ruas em celebração e pagamento da primeira promessa. Em seguida, no dia 24 de junho, Dia de São João, a tradição se renova com a segunda promessa, marcada pela Ladainha e pela presença forte da comunidade.

Por fim, Karen ressalta que a terceira promessa é a mais emblemática: ocorre na arena do festival, quando o boi se apresenta diante do público e reafirma sua origem espiritual. É nesse momento que entram as figuras do santo e da padroeira, reforçando a dimensão sagrada que sustenta o espetáculo.

Por isso, explica ela, a Ladainha de São João não é apenas um ritual: é memória viva. É a continuidade de um gesto fundador que nasceu com Lindolfo Monteverde e que, até hoje, segue sendo honrado pela família Monteverde e por todos os torcedores, que participam como parte dessa mesma promessa coletiva, mantendo acesa uma tradição que atravessa gerações.

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